O título deste blog remete para a escola de outros tempos e serão "retratos" dessa escola que aqui aparecerão.
Terça-feira, 5 de Dezembro de 2006
Vozes de animais

No “Livro de leitura da 3ª classe” existia o poema que em outra época soube de cor..

 

Vozes de animais

 

Palram pega e papagaio,

E cacareja a galinha;

Os ternos pombos arrulham,

Geme a rola inocentinha.

 

Muge a vaca, berra o touro,

Grasna a rã, ruge o leão

O gato mia, uiva o lobo,

Também uiva e ladra o cão.

 

Relincha o nobre cavalo,

Os elefantes dão urros,

A tímida ovelha bala,

Zurrar é próprio dos burros.

 

Regouga a sagaz raposa

(a)Brutinho muito matreiro;

Nos ramos cantam as aves,

Mas pia o mocho agoureiro.

 

Sabem as aves ligeiras

O canto seu variar;

Fazem gorjeios às vezes,

Às vezes põem-se a chilrar.

 

O pardal, daninho aos campos,

Não aprendeu a cantar:

Como os ratos e as doninhas

Apenas sabe chiar.

 

O negro corvo crocita,

Zune o mosquito enfadonho;

A serpente no deserto

Solta assobio medonho.

 

Chia a lebre, grasna o pato,

Ouvem-se os porcos grunhir;

Libando o suco das flores,

Costuma a abelha zumbir.

 

Bramem os tigres, as onças,

Pia, pia, o pintainho;

Cucurita e canta o galo,

Late e gane o cachorrinho.

 

A vitelinha dá berros;

O cordeirinho, balidos;

O macaquinho dá guinchos,

A criancinha vagidos.

 

A fala foi dada ao homem,

Rei dos outros animais:

Nos versos lidos acima

Se encontram, em pobre rima,

As vozes dos principais.

 

Pedro Dinis

 

(a) A quarta quadra surge noutros livros com uma versão diferente

 

Regouga a sagaz raposa

(bichinho muito matreiro);

Nos ramos cantam as aves,

Mas pia o mocho agoureiro.

 



publicado por Paulo às 15:13
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Sábado, 28 de Outubro de 2006
Camilo Castelo Branco

Camilo Castelo Branco é um dos principais escritores da língua portuguesa. Toda a gente conhece o Camilo escritor de romances, mas poucos conhecerão o Camilo Castelo Branco escritor de textos científicos.

O livro  Leituras Escolares   tem um texto intitulado " A agua" da sua autoria.

Segue-se o interessante escrito na sua grafia original.

            "A’ semelhança do ar, é a agua indispensável á  conservação da vida animal. Reduzida a vapor, condensa-se em nuvens, desfaz-se em chuva e volve-se um dos princípios mais fecundantes da vegetação. A agua corrente é o mais económico motor ao alcance do homem; aquecida até certo grau, faz-se agente de força illimitada (machina de vapor); é, em summa, um magnífico adereço do universo.

Os ribeiros, lagos e catadupas aformoseiam a paizagem, e não há ahi coisa mais majestosa que a corrente de um rio largo, e nada mais espectaculoso que o mar em tormenta.

A agua que envolve parte do globo ( a agua marítima), ou a que lhe deriva no interior, ou á  flor da terra (agua doce), contém matérias extranhas, que lhe depuram mediante a vaporização ou a destillacão. Quem quer saber a quantidade de matérias sólidas, taes como sulfato de cal e carbonato de cal, dissolvidas na agua de fonte ou poço, faz evaporar o liquido em um vaso vidrado, posto ao fogo. A valia-se a pureza da agua consoante a qualidade e natureza do resíduo. Devem considera-se boas para beber as aguas correntes, límpidas, sem cheiro, nas quaes se cozem bem os legumes e sem cheiro, nas quaes se cozem bem os legumes e se dissolve o sabão sem produzir grumos, nem perder a limpidez, ainda que lhe disslvâmos nitrato de prata, e que, evaporadas até ao extremo, deixem pequeno ou nenhum depósito. A agua pura, a não ser sufficientemente arejada, não é boa. Agua procedente de chuva, neve ou gelo deve ser filtrada ao travéz de pedra porosa ou camada de areia fina. Depois, é mister vascolejá-la em loca bem arejado, para que ella se torne excellente.

A agua passa do estado líquido ao sólido pelo abaixamento de temperatura (quando géla). Neste caso, o seu volume progressivamente diminue  até marcar cerca de quatro graus centígrados de temperatura, pouco mais ou menos, acima de zero do thermómetro. E’ então que ella ao seu maximum de densidade ( o maior peso no mesmo volume). D’aqui em deante, o liquido dilata-se, e, se o vaso que o contém, não é movido, a temperatura póde baixar até cinco graus sem gelar; mas, logo que o vaso é agitado, apparece multidão de caramellos que se agrupam, formando massa de agua gelada, cujo volume é maior que o do líquido de que procede. Calcula-se que 14 litros de agua produzem 15 litros de gêlo. Isto explica as rupturas longitudinaes das arvores nos Invernos aturados. Tem-se visto a agua gelada, em canudo de ferro de espessura de um dedo, abri-lo por dois pontos. Também se calcula que a força empregada pelo gêlo no rompimento de uma esphera de metal, equivale a 13:860 kilogramas."

 



publicado por Paulo às 23:17
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Domingo, 15 de Outubro de 2006
Educação Cívica

Em 1902 foi aprovado um novo programa de Educação cívica para o Ensino primário. Em 1903 foi editado Primeiras noções de Educação Cívica de Domingos D’Almeida Nogueira que era Bacharel formado em Direito, Bacharel em Teologia e advogado.

O livro custava 150 reis e tinha 32 páginas.

Do seu conteúdo consta uma análise resumida da Constituição Portuguesa, referências às divisões administrativa e eclesiástica e aos impostos existentes.

Comparativamente com a actualidade, em que se termina uma licenciatura sem abordar estes assuntos durante seu percurso escolar, é interessantes constatar a obrigatoriedade da sua abordagem no ensino primário.

Uma nota curiosa reside no facto de na capa interior vir colada uma pequena folha publicitária da Livraria Nacional e Estrangeira, com a indicação de outros livros que vendiam para o ensino primário, e de usarem uma técnica publicitária que ainda hoje se ouve com frequência em relação aos manuais escolares, quando aconselham manuais do mesmo autor durante um ciclo.

Refere-se ao livro de desenho para as 3ª e 4ª classes. Diz o seguinte:

 Lembramos aos Srs. Professores em geral que sendo o compêndio de Vicente de Freitas o ÚNICO aprovado para as 3ª e 4ª classe ha toda a vantagem em se adoptar o de 1ª e 2ª classe do mesmo auctor para a uniformidade do ensino.

 



publicado por Paulo às 21:57
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Quarta-feira, 4 de Outubro de 2006
Sem contexto

 Num tempo em que se torna quase obrigatório contextualizar qualquer pergunta, ficam aqui 6 exemplos das famosas questões que os alunos tinham que responder.

Hoje,  cada uma destas questões obrigaria  ao dobro ou ao triplo do texto, embora se pretendesse que o aluno desse a mesma resposta.

As perguntas foram retiradas de um livro já aqui referido: Caderno de 111 temas de revisão para o exame da 4ª classe.

1 - O que são linhas paralelas?

2 - Quantos vértices tem um quadrilátero.

3- Para que serve o tranferidor?

4 - Escreve em numeração romana a data histórica de 1926.

5 - Quantos lustros tem um século.



publicado por Paulo às 23:24
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Sábado, 30 de Setembro de 2006
A Europa em 1906

No livro Chorographia de Portugal e de chronlogia, de 1906, estão indicados os estados independentes da Europa à época com a seguinte introdução.

 

 Habitando nós a Europa e sendo esta a parte mais civilizada do Mundo, julgamos conveniente indicar aqui os seus Estados independentes com suas capitães e formas de governo, como uma pequena lição para os que vão frequentar os Lyceus ou Escolas Industriaes.

.

 

Estados independentes

Forma de Governo

Capitaes

 

 

 

Inglaterra ou Gran Bretanha

Reino

Londres

Russia

Imperio

S.Petersburgo

Suecia

Reino

Stockolmo

Noruega

Reino

Christiania

Dinamarca

Reino

Copenhague

Allemanha

Império

Berlim

França

Republica

Paris

Hollanda ou Paizes Baixos

Reino

Haya

Italia

Reino

Roma

Belgica

Reino

Bruxellas

Suissa

Republica

Berne

Áustria-Hungria

Imperio

Vienna

Turquia

Imperio

Constantinipla

Grecia

Reino

Athenas

Hispanha

Reino

Madrid

Portugal

reino

Lisboa

Rumania

Reino

Bucharest

Servia

Reino

Belgrado

Montenegro

Principado

Cettigno

Bulgaria

Principado

Sofia

Republica de Andorra

Republica

Andorrra

Republica de S. marino

Republica

S. Marino

Principado do Monaco

Principado

Monaco

 

Comentário:

De notar que se assumia sem qualquer inibição a superioridade da Europa em termos civilizacionais, o que hoje seria considerado, no mínimo, politicamente incorrecto.

 



publicado por Paulo às 00:45
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Domingo, 24 de Setembro de 2006
O exame da 4ª classe

 O livro  “Caderno de 11 temas de revisão para o exame da 4ª classe”  é da autoria do professor Albertino Rebelo de Sousa. O leitor é informado que está de acordo com o último Regulamento Ministerial de 5 de Abril de 1968, pelo que, embora não encontrando a data da edição do livro, pode –se concluir que será entre 1968 e 1974.

A 3ª página do livro traz informa sobre as características dos exames da 4ª classe. Eis a transcrição.

“ As provas práticas e escritas iniciam-se em 1 de Julho ás 9horas.

 

Prova Prática

 

a)      Lavores Femininos para as alunas e Trabalhos Manuais para os alunos.

b)       Conversação sobre Moral e Religião, Educação Cívica, Educação musical e Educação Física.

 

As Provas de Lavores Femininos e Trabalhos Manuais deverão constar da execução de um trabalho já iniciado na escola e que deverá ser, tanto quanto possível, diversificado em relação aos alunos de cada proponente, cumprindo-se o estabelecido na alínea b) durante a execução do trabalho da alínea a).

 

As provas práticas começam às 9 horas e verão estar concluídas às 9 horas e 45 m.

 

Prova escrita

 

a)      Ditado – texto de 10 a 12 linhas com vocabulário da linguagem corrente, incluído nos livros de leitura aprovados, não excedendo 100 a 120 palavras. Duração da prova – 30 minutos.

 

b)      Redacção – Interpretação livre de um texto elaborado com vocabulário incluído nos livros de leitura em uso (fábula, história, poesia, etc.) e previamente lido e comentado pelo Júri ou composição sobre assunto de directo conhecimento do aluno. Duração da prova – 30 minutos.

 

Intervalo de 15 minutos

 

c) Aritmética e Geometria – Resolução de três problemas (dois de Aritmética e um de Geometria). Resposta a seis questões, sendo três de Aritmética e 3 sobre Geometria e não podendo ser nenhuma das questões desdobradas em alíneas. Duração da prova – 60 minutos

 

Intervalo de 15 minutos

 

c)      Ilustração de um conto ou narração previamente apresentado e explicado, podendo o examinando utilizar livremente os materiais e técnicas que deseje.

 

A prova de Ditado será qualificada de Bom até 2 erros; de suficiente se tiver 3 a 6 erros; de medíocre de 7 a 8 erros. Por cada falta ou troca de acento, emprego de letra maiúscula, etc, contar-se-á ¼ de erro.”

 

Eram assim as provas Prática e Escrita do exame da 4ª classe no final da década de sessenta e início de setenta do século passado em Portugal, com currículo diferenciado para rapazes e raparigas e algumas normas que na prática não eram cumpridas.

Em relação à Moral e Religião apesar de haver professores que não a davam, os alunos, todos frequentadores da catequese, estariam aptos a responder a qualquer questão. No que se refere à Educação Musical e à Educação Física, eram assuntos completamente ignorados em muitas escolas do país, pelo que apesar de constarem dos assuntos que deveriam ser objecto de exame, tal não sucedia em muitas localidades.



publicado por Paulo às 23:11
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Quarta-feira, 20 de Setembro de 2006
Comportamento escolar segundo João de Deus

O primeiro texto do livro Leituras Escolares,  que está enquadrado no capítulo Civilidade,  é um texto de João de Deus.

Aqui ficam alguns excertos, com a grafia original.

 

Comportamento escolar

O filho obediente faz em tudo a vontade a seus pães, e se o mandam à escola, deve-se applicar, que a utilidade é sua.

Porque sem instrucção a gente é como os animaes.

(…)

E como se há-de comportar quem tem a felicidade de ser mandado á escola por seus pães?

Indo pelo caminho que lhe marcam, sem se apartar nem distrahir; chegando a horas, entrando socegado; tomando o seu logar com o menor incómodo possível dos companheiros; prestando muita attenção ao mestre; não se rindo, não conversando, não gracejando, e quer seja observado, quer não conservando-se sempre com a devida seriedade.

Um discíplo deve ser comedido e modesto, sem ser acanhado: quando não entende alguma coisa, pede licença para perguntar, e o mestre explica.

(…)

os mestres são os pães da instrucção, e os discípulos entre si devem-se amar como irmãos.

Um alumno bem educado não conta as faltas dos companheiros, nem as reprehensões e castigos que levam na escola; assim como também não vae à escola contar o que fizeram cá fora; não acusa nem compromete os mais.

(…)

Nunca se recorre à força, salvo em defeza do mais fraco..

Devemos respeitar os mestres e receber humildemente os seus preceitos; porque eles foram escolhidos para nos guiar, e estão em logar de nossos pães.

Se ás vezes se mostram severos, é desvelo pelo nosso aproveitamento, o que devemos agradecer e não levar a mal.

Nunca os devemos censurar; e quando à nossa vista são acusados, temos obrigação de os defender, como bons filhos ou bons amigos.

 

Alguém conseguiu ler sem um sorriso nos lábios?



publicado por Paulo às 19:10
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Quarta-feira, 13 de Setembro de 2006
A pesca do bacalhau

O pequeno texto que vou reproduzir não tem 40 anos, mas após a leitura será visível a sua total desactualização.

O excerto foi retirado do livro da 4ª classe ,Ciências Geográfico-Naturais,  da autoria de Pedro de Carvalho. Não tem data de edição, mas está de acordo com os programas de 1968 e é anterior a 1974.

A transcrição mantém o negrito e o itálico do original.

 

“ – A pesca do bacalhau – O bacalhau é um valioso peixe dos mares frios do Norte (Terra Nova, Gronelândia e Islândia).

Depois de salgado e seco, constitui um alimento forte, muitíssimo usado por nós.

Portugal possui uma boa frota de navios bacalhoeiros, hoje já motorizados.

Estas embarcações vão longe à procura desse precioso peixe – «o fiel amigo» –, que é pescado à linha ou com redes de arrasto.

A indústria e o comércio do bacalhau contribuem, de forma bem notável, para o engrandecimento da Nação.”



publicado por Paulo às 23:21
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Domingo, 10 de Setembro de 2006
Leituras escolares

 

A 10ª edição, (muito melhorada, de acordo com o que lá se encontra escrito), do livro Leituras Escolares está datada de 1897 e destina-se aos alunos do 2º grau do curso elementar. É da autoria de Arlindo Varella e J.M.Silva Barreto, identificados como Professores das escolas centraes de Lisboa.

 

O livro tem 372 páginas encontrando-se nele todas as matérias que os alunos deveriam saber, divididas em vários capítulos:

 

· Contos e apólogos

· Moral e Religião

· Civilidade

· Poesia

· Sciencias Physicas e Naturaes

· Hygiéne

· Economia

· Geographia

· Historia

· Acções e ditos memoráveis

· Instrucção vária

 

Como a capa está quase ilegível, insiro a imagem do frontispício, (penso que seja esta a designação), que repete o que está escrito na capa.

 



publicado por Paulo às 00:56
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Terça-feira, 5 de Setembro de 2006
Portugal continental em 1906

Do livro Noções de Chorographia de Portugal e de chronlogia, de 1906, eis o que as crianças precisavam saber, e que no fundo nos mostra também algo sobre a realidade portuguesa do final da monarquia.

Aqui fica a transcrição que mantém os itálicos e a grafia do original.

 

PORTUGAL CONTINENTAL

 

Portugal, nossa querida pátria, está situada na parte mais occidental da Europa, uma das cinco partes do mundo.

É limitada, ao Norte e Leste, pela Hispanha; ao sul e Oeste, pelo oceano atlântico. A Península hispânica ou ibérica é formada pelos reinos de Portugal e Hispanha. Aos portugueses também se lhes dá a designação de  lusitanos e, antigamente, a capital da Lusitânia era  Merida.

SUPERFICIE

A de Portugal continental é de 89:000 kilometros quadrados

POPULAÇÃO

A do continente e ilhas adjacentes é, approximadamente, de 6 milhões de habitantes. A do continente é de 5 milhões e meio.

RELIGIÃO

A do Estado e professada pelos portugueses é a  Catholica, Apostólica, Romana, e o chefe supremo da Egreja é o Papa. Os outros cultos são permitidos, em particular.

 

 

Algumas curiosidades ressaltam desta leitura:

· A referência à pátria

· A existência de uma religião do Estado

· A permissão de outros cultos em privado.



publicado por Paulo às 23:40
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